29/01 - 11:43 - O tempo próprio de Benjamin Button
Maurício Carvalho
O tempo é um assunto recorrente na arte. Literatura e o próprio cinema adoram enfocar o tema, desde clássicos como “O Retrato de Dorian Grey”, de Oscar Wilde, até filmes mais descolados como “Highlander” e “Feitiço do Tempo”. Agora, um dos principais concorrentes ao Oscar, “O Curioso Caso de Benjamin Button”, tem a contagem dos anos e a inversão do envelhecimento como tema predominante.
O filme é um marco para o diretor David Fincher. Conhecido pela sua estética moderna, muitos efeitos especiais e uma violência pop extremada (como em seus clássicos “Seven” e “Clube da Luta”), Fincher se rende a um filme de andamento mais lento, com efeitos especiais mais contidos e personagens mais convencionais, apesar de muito interessantes. Com mão firme e driblando com maestria os momentos que poderiam cair no brega ou na emoção exagerada, ele apresenta um filme forte e lírico, com imagens belíssimas e uma mensagem positiva, sem parecer didático ou pedante. Claro que o roteiro de Eric Roth se aproveita da qualidade do conto original do mestre F. Scott Fitzgerald, escrito na década de 1920.
Além disso, a terceira parceria com Brad Pitt deu a chance do galã mostrar todo o seu potencial dramático. E Pitt dá conta do recado, tanto que foi indicado ao Oscar. Seu Benjamin Button é contido, observador, toma as decisões sem alarde, mas elas são pungentes, quase definitivas. Convivendo com sua estranha condição, sem sentir pena de si mesmo ou culpar Deus, o mundo ou as outras pessoas, Benjamin aprende a sobreviver e a encarar o fato de que vai ver todos a sua volta morrer enquanto seu corpo vai ficando jovem.
Mas a jornada é longa para Benjamin. Ele nasce no final da Primeira Guerra Mundial, em 1918. O parto complicado mata sua mãe. Seu pai, destroçado pela dor, fica ainda mais transtornado ao ver a criança toda enrugada, parecendo um monstro. Enlouquecido, ele ameaça matá-la mas acaba o abandonando em um asilo, onde é cuidado pela afetuosa Queenie (Taraji P. Henson, que também concorre ao Oscar). Lá, rodeado por pessoas que sofrem de catarata, artrite e outras doenças como ele, Benjamin descobre que vai melhorando com o passar do tempo.
É ainda como uma criança idosa que ele conhece a mulher de sua vida. Daisy (Cate Blanchett), que vê naquele homenzinho curvado uma criança como ela. É através dela no leito de morte, em um hospital de New Orleans prestes a ser atingido pelo furacão Katrina, que conhecemos os passos de Benjamin. Em uma constante mudança de época, vamos voltando e avançando no tempo (não poderia ser diferente) para ver que Benjamin vai crescendo e descobrindo o mundo, conhecendo o planeta a bordo de um barco, participando de guerras, descobrindo o amor e os laços de sua família.
O diretor David Fincher também inclui pitadas de humor e drama, seja nas histórias dos moradores do asilo (desde velhinhos estranhos, cachorros que não morrem e até um pigmeu) até as tragédias que vão mudando o relacionamento de Benjamin e Daisy. A maquiagem do filme é perfeita e os efeitos especiais, adicionando a cabeça de Brad Pitt no corpo de um ator mirim para mostrar seus primeiros anos funciona muito bem.
Muitos relacionaram o filme a “Forrest Gump”, por apresentar um personagem que vislumbra os acontecimentos e interefere neles e pelo relacionamento complexo com sua amada, mas a diferença está no estilo de condução, mais sóbrio e verossímil. Dá pra acreditar no que passa na telona, o que ajuda muito a vencer os 166 minutos do filme, tempo muito bem aproveitado. Em todos os sentidos.
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