17/09 - 13:54 - O grande filme de Zé do Caixão
Maurício Carvalho
Quarenta anos depois, um dos mitos do cinema nacional, o internacionalmente incensado José Mojica Marins finalmente tem a possibilidade de completar a trilogia de seu mais célebre personagem, Zé do Caixão. O filme “Encarnação do Demônio” completa o que começou em “À Meia-Noite Levarei sua Alma” (1964) e “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver” (1967). Pena que a censura pegou pesado com Marins e taxou o filme com uma censura 18 anos, apesar de vários filmes gringos, como “O Albergue” e “Jogos Mortais 4”, terem igualmente cenas fortes e permitirem que maiores de 16 anos possam assistir.
E o roteiro, de Marins e Dennison Ramalho, consegue amarrar bem os dois longas anteriores e explicar as quatro décadas sem a presença de Josefel Zanátas (o nome do Zé do Caixão) no cinema. Preso pela polícia, Zé passou 40 anos entre uma clínica de recuperação e a ala de detenção de uma casa de saúde. Lá, fez as piores atrocidades, mas recebeu a liberdade da justiça. O filme começa no momento que os carcereiros o tiram da solitária. A aparição das inconfundíveis unhas gigantes, a barba grisalha, as roupas negras e o jeito arrastado de falar são marcantes, assim como a rápida interpretação de Luis Melo como o chefe da cadeia.
Aliás, a interpretação é um capítulo à parte em “Encarnação do Demônio”. Os atores experientes capricham na canastrice e mergulham com fervor no estilo do filme. Tudo é extremado, das motivações da “turma do bem” formada pelos policiais Claudiomiro Pontes (Jece Valadão, em seu último papel) e Osvaldo Pontes (Adriano Stuart) e o padre Eugênio (Milhelm Cortaz) à adoração fervorosa dos asseclas de Zé, como o aleijado Bruno (Rui Rezende) e seus jovens ajudantes sado-masoquistas.
Depois que sai da cadeia, Zé do Caixão começa a retomar seu sonho de gerar um herdeiro perfeito, que imortalize seu sangue. No meio de uma favela violenta ele monta seu antro, recrutando candidatas a progenitora do filho do maldito. Aí começa uma seqüência de estripações, rituais, visões doentias, torturas, mulheres peladas, sangue e sustos a valer, bem no estilo do terror.
É até de impressionar a qualidade dos efeitos especiais e das locações, ainda mais porque o filme conseguiu apenas 1,8 milhão de reais, graças ao investimento federal para obras de baixo orçamento. Parece que dá pra perceber cada centavo investido, seja nas vísceras à mostra ou nas imagens que relembram os dois primeiros filmes, em preto e branco, que ajudam a posicionar o espectador sobre a história desse personagem inesquecível do cinema nacional. Mojica conseguiu sua missão e mostrou que é um mito da sétima arte mundial.
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