24/09 - 14:01 - “O Nevoeiro” surpreende pelo drama humano frente ao terror
Maurício Carvalho
O diretor Frank Darabont (“Um Sonho de Liberdade”) se deu conta de que os contos de Stephen King não são simplesmente obras de terror, apesar de terem mistérios, sustos e seres sobrenaturais como temas constantes. Títulos como “À Espera de Um Milagre” e “O Iluminado” já mostravam que as mazelas da sociedade tinham amplo espaço em seus livros. E “O Nevoeiro” é mais um bom filme que se apropria dessas características mais humanas do trabalho de King.
Mas os sustos são constantes e prendem o espectador na cadeira. “O Nevoeiro” é ambientado em uma pequena cidade norte-americana de Maine. Durante a noite, uma tempestade causa vários problemas. O artista plástico David Drayton (Thomas Jane, de “O Justiceiro”) e seu filho, assim como vários moradores, se dirigem ao supermercado para repor mantimentos e comprar materiais para o conserto. É então, sem maiores explicações, que a cidade é envolta por um estranho e denso nevoeiro. De dentro dele, criaturas bizarras e perigosas obrigam àquelas pessoas a ficarem dentro do estabelecimento.
Darabont mostra que sabe comandar bem as partes de ação, com bichos medonhos (parecidos com os insetos gigantes meio pré-históricos de “King Kong”) aparecendo do nada e detonando as pessoas que se aventuram fora do mercado. Muito sangue jorrando, gente sendo comida viva e venenos inesperados garantem a ação nos 126 minutos de exibição.
Mas as explicações a esses ataques são mais importantes. O que acontece quando uma sociedade organizada é desprovida de informações, eletricidade, comunicação e esperança? Segundo Darabont, volta a um primitivismo que é extremamente perigoso. Sem falar que começa a se abraçar a teorias absurdas e dar espaço para os malucos eloqüentes.
Presos e ameaçados, pessoas das mais diferentes formações, convicções e credos precisam conviver juntas. E tentar achar explicações e formas para sair daquela enrascada. Enquanto alguns são racionalistas ao extremo, não sendo capazes nem de entender a verdade absurda mas palpável e se arriscam por entender que suas mentes são mais privilegiadas do que a dos seus pares, outros se abraçam fortemente à religião, acreditando que tudo vem ou será resolvido por Deus.
“O Nevoeiro” discute uma situação latente, principalmente nos Estados Unidos, sobre a briga entre a ciência e a religião, além de mostrar a insegurança que se aplaca sobre a população comum. Sempre com a mão certeira, o diretor não deixa o filme descambar para a filosofia pura ou para a ação descabida e termina a obra com um soco no estômago, de maneira irreparável. Um filme que vale ser visto e que coloca o rótulo “terror” em outro patamar.
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