23/10 - 09:46 - “Trovão Tropical” satiriza o próprio cinema mas não é ácido o suficiente
Maurício Carvalho
Olhar o cinema com um olhar crítico nunca foi novidade. Billy Wilder fez isso em “O Crepúsculo dos Deuses” e outros filmes buscaram mostrar bastidores e brigas de egos na produção dos filmes. E o comediante Ben Stiller, não titubeou em mostrar alguns podres da “indústria de Hollywood” na comédia “Trovão Tropical”, que foi um grande sucesso nos Estados Unidos mas que está tendo apenas uma performance mediana nas salas brasileiras. O filme, no modo geral, também é somente mediano. Como comédia, se perde no roteiro, tenta encaixar muitos acontecimentos que se amontoam e prejudicam o resultado final, além de piadas de grande mau gosto.
Mas analisado como uma peça irônica sobre o mundo do cinema, o filme é bem interessante. A história é simples: três atores de estilos diferentes estão em uma super-produção sobre a Guerra do Vietnã que não vai bem. Os egos dos atores não é controlado pelo diretor novato e o produtor ameaça cancelar o projeto. No meio disso, o autor do livro convence o diretor a transformar o filme em uma espécie de reality show, com os atores vivendo perigosamente no meio da selva. Só que eles esbarram com uma quadrilha de produtores de drogas e a ficção vira uma perigosa realidade.
Stiller é bastante criativo para apresentar os personagens principais. Ao invés de contar suas histórias, apresenta trailers falsos de seus trabalhos mais recentes. Ele próprio vive um ator truculento (estilo Stallone) que repete o mesmo papel diversas vezes. Jack Black é um comediante viciado em drogas que interpreta personagens grotescos na telona e Robert Downey Jr. é um ator consagrado, vencedor de vários Oscar e que encara vários filmes-cabeça.
Além deles, um rapper e um jovem ator completam o time de protagonistas, que trazem todos os tiques e egocentrismos comuns em Hollywood. Stiller mostra a atuação da imprensa, dos produtores e dos agentes, interferindo e tentando puxar a sardinha para os seus interesses. O filme em si, nem sempre parece ser a prioridade. Aos poucos, conforme as coisas vão piorando, os atores deixam a interpretação de lado e mostram suas qualidades como homens.
A polêmica acompanha “Trovão Tropical” desde a caracterização de Downey Jr., que leva o laboratório de interpretação às últimas conseqüências, ganhando a pele negra e começando a falar como um Black. As insinuações sobre a pressão política no Oscar, a falta de escrúpulos dos produtores e o mundo de fantasia dos atores são explorados sem dó.
Essa fórmula parece ter agradado vários atores carimbados como Tom Cruise, Nick Nolte e Jon Voight, que fazem participações interessantes no filme. O resultado final poderia ser melhor, mas vale a pena acompanhar os 107 minutos de “Trovão Tropical”. As risadas são constantes, tanto pelo humor quanto pela ironia.
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