18/11 - 14:38 - Ensaio sobre a condição humana
Maurício Carvalho
Assim como o livro do português José Saramago, a adaptação para o cinema de “Ensaio Sobre a Cegueira”, comandada pelo diretor brasileiro Fernando Meirelles, é nitroglicerina pura. A força das imagens, o conceito da perda da humanidade em troca da sobrevivência, o descaso e falta de controle do estado e a necessidade de se adaptar a uma realidade áspera e dura causaram uma notável divisão de opiniões. Críticos adoraram, críticos detestaram. O autor, pelo que se sabe, aprovou a versão. Isso já aumenta os pontos para Meirelles, que encarou o desafio de produzir uma história complicada e envolta em uma aura filosófica complexa de ser transformada em imagens. Mas acho que o brasileiro conseguiu o seu intento. “Ensaio” é um filme forte, fiel ao livro, mas que trouxe outros aspectos à obra que somente uma mídia que envolve som e imagem, como o cinema, poderia conceder.
Meirelles quis fazer um caldo multicultural no filme. Mas, ao contrário do “Babel” de Alejandro Gonzalez Iñarrutu, a mistura deu certo. Americanos, japoneses, negros e latinos estão no mesmo barco da cegueira branca. O filme começa e termina exatamente como Saramago descreve no livro. Sem maiores explicações, um motorista japonês perde a visão no trânsito, quando o sinal muda do vermelho para o verde. Assustado, ele é levado para casa e, depois, para um oftalmologista (Mark Ruffalo), que não encontra nada de errado com ele. Rapidamente, de forma contagiosa, as pessoas vão ficando cegas. Também estranhamente, a esposa do médico (Julianne Moore) mantém sua visão.
Com medo, as autoridades exilam os infectados em uma espécie de manicômio, sem maiores tratamentos ou cuidados. Os cegos precisam reaprender a sobreviver e a se relacionar, pois cada vez mais pessoas são colocadas sob o mesmo teto. E, também rapidamente, os conflitos começam. A falta de comida e higiene faz com que um grupo se organize contra os outros (liderado pelo mexicano Gael Garcia Bernal, foto), passando a exigir desde riquezas ao sexo. As questões morais ainda valem ou se manter vivo é o primordial? Essa é uma das perguntas do filme.
Também esteticamente, Meirelles tenta colocar o espectador no mundo da cegueira branca. A fotografia “apaga” as imagens, desfoca os personagens e faz com que a audição seja muito importante para entender o filme. Essa característica acaba cansando um pouco, assim como as explicações do velho negro vivido por Danny Glover (que dizem ser o alter-ego de Saramago), que fecha lacunas, mas deixa pouco espaço para a livre interpretação. Porém, é um filme belo e chocante, que faz deixar as cadeiras do cinema pensando e discutindo. Algo que todo o filme que se preze deveria fazer.
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